No Brasil, dados do IBGE (2021) indicam que cerca de 30% da população não tinha acesso regular a serviços de atenção primária à saúde.
Em meio à campanha do Dezembro Laranja, promovido pela Sociedade Brasileira de Dermatologia que destaca a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de pele, um dado alarmante ganha destaque na Bahia: o melanoma acral.
Esta é uma forma agressiva da doença que afeta as extremidades do corpo – como palmas das mãos, plantas dos pés e unhas –, apresenta uma das maiores taxas de mortalidade do mundo em regiões como o Recôncavo Baiano, onde a população negra é maioria. Vale destacar que a doença tem cura, principalmente, se for descoberta precocemente.
O melanoma, pode surgir em qualquer parte do corpo, incluindo o couro cabeludo, a pele em geral, os olhos, a mucosa e até mesmo dentro da boca. Quando o melanoma aparece em áreas como a palma das mãos, planta dos pés ou na região da unha (aparelho ungueal), é denominado melanoma acral. Esse subtipo é particularmente preocupante porque não faz distinção de tom de pele, afetando igualmente pessoas de diferentes etnias, a grande questão para a população negra é o diagnóstico tardio e falta de saúde básica para se atentar a pequenas lesões no corpo.

Embora a incidência seja igual em pessoas de todos os tons de pele, no geral, negros não associam manchas escuras nessas áreas a um possível câncer, levando a diagnósticos tardios. Essa realidade motivou a realização de eventos para chamar atenção para a gravidade dessa doença, que muitas vezes não é suspeitada pela população negra como, explicou o dermatologista Lucas Fernandes, membro do Grupo Brasileiro de Melanoma.
“Isso que circula no senso comum de que o negro tende a não ter câncer de pele é verdade para a grande maioria dos subtipos, apesar de que sempre o negro também pode ter. Só que esse específico, do qual a gente quer chamar atenção, que é o melanoma acral, não tem distinção de corpo. E aí que é o problema. O negro tem isso na cabeça, ele pensa que aquilo é a micose, fica usando um creme antifúngico por tempo e quando descobre, às vezes, já tem uma metástase em órgãos internos, até no cérebro, por exemplo”, explicou o dermatologista.

Diagnóstico tardio e subnotificação
Para rastrear essas informações, o grupo utilizou-se de pesquisas de mortalidade para o melanoma acral, informações de obituários, de hospitais, levando em consideração que os casos são subnotificados porque a maioria das vezes a metástase da doença vai para pulmão ou cérebro e muitos pacientes morrem com sintoma de AVC. Os dados são referentes há 10 anos, que inclusive, revelaram o aumento da doença de ano a ano.
Dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) indicam que o Brasil registra mais de 220 mil novos casos de câncer a cada ano. Destes, cerca de 4% são melanomas, que embora representem uma pequena fração, são responsáveis por 85% das mortes por câncer de pele.
Fatores de risco e sintomas
O grande fator de risco para a população negra é o diagnóstico tardio. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2021) indicam que cerca de 30% da população não tinha acesso regular a serviços de atenção primária à saúde, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
A ausência desses serviços básicos resulta no agravamento de doenças como o melanoma acral que acaba por atingir ainda mais as populações pobres periféricas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas sem acesso aos serviços do Sistema único de Saúde (SUS).

Caso Bob Marley
O caso de Bob Marley, ícone mundial do reggae, é um exemplo de conscientização sobre o câncer de pele. O cantor jamaicano faleceu em 1981, aos 36 anos, devido a complicações de um melanoma acral lentiginoso.
A doença começou como uma lesão sob a unha de seu dedo do pé, inicialmente interpretada como um ferimento causado por uma partida de futebol. Marley recusou a amputação do dedo, recomendada pelos médicos, por questões religiosas, sendo adepto do rastafarianismo. O melanoma se espalhou para outras partes do corpo, incluindo pulmões e cérebro, levando a um estágio avançado e fatal da doença.
Histórico Familiar e câncer de pâncreas
Ao Acorda Cidade, o médico Fernandes ainda pontuou que o histórico familiar de pacientes que tiveram câncer de pâncreas é outro agravante. Pacientes devem estar atentos para o surgimento de qualquer pintas no corpo.
“Essa doença pode afetar qualquer pessoa, ela tem uma certa aleatoriedade, então qualquer um de nós estamos sujeitos a ela, infelizmente, mas eu chamo a atenção que existe uma correlação também genética com outros tipos de câncer, como, por exemplo, o tumor de pâncreas. Então, existe um tipo de gene que está associado ao tumor de pâncreas e de melanoma”.
Fonte: Acorda Cidade






