Tabagismo desafia a saúde pública: Tribuna pioneira no combate

Segundo o Vigitel 2019, 9% da população adulta brasileira se declara fumante

Uma tragada, e pronto: o vício se instala. O gesto aparentemente banal de acender o primeiro cigarro ainda é, para muitos, a porta de entrada para um hábito difícil de abandonar — e, muitas vezes, para uma vida inteira de dependência. No Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado neste 1º de junho, o alerta continua urgente. O Brasil tem avançado na redução do número de fumantes, mas os prejuízos à saúde pública e à economia seguem graves. A Bahia e Salvador estão entre os destaques positivos nessa batalha, mas os desafios se renovam com os cigarros eletrônicos e os novos apelos da indústria do fumo.

Segundo o Vigitel 2019, 9% da população adulta brasileira se declara fumante. Na Bahia, o número sobe para 9,7%, enquanto em Salvador cai para 5,4%, colocando a capital baiana entre as cinco com menor prevalência do país — atrás apenas de cidades como São Luís (4,3%) e João Pessoa (5,1%). Em contrapartida, Curitiba e Porto Alegre seguem entre as capitais com os maiores índices, com 14,2% e 13,1%, respectivamente. Essa diferença revela o impacto das políticas públicas locais, especialmente a atuação de programas como o Nacional de Controle do Tabagismo, que oferece apoio médico, psicológico e terapêutico para quem deseja parar de fumar.

Mesmo com os avanços, os impactos do tabagismo seguem devastadores. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil gasta anualmente cerca de R$ 125 bilhões com os efeitos do cigarro. Isso inclui custos com tratamentos médicos, aposentadorias precoces, internações, perda de produtividade e mortalidade precoce. Desse total, cerca de R$ 57 bilhões recaem diretamente sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).

O câncer de pulmão, previsto para atingir 32 mil pessoas em 2024, representa sozinho um custo de R$ 9 bilhões ao ano. Além disso, mais de 60% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, o que reduz as chances de cura e eleva os custos.

A gravidade é ressaltada por especialistas. Para o médico Alfredo Scaff, da Fundação do Câncer, “o cigarro compromete o sistema cardiovascular, provoca infartos, AVCs, doenças respiratórias e agrava quadros crônicos. É uma bomba-relógio para o corpo humano e para a saúde pública.”

Em 1980, quando o ato de fumar era exaltado em comerciais e telenovelas, a Tribuna da Bahia se tornou um símbolo de resistência. Sob o comando de Joaci Góes, o jornal rompeu com os interesses comerciais e decidiu eliminar de suas páginas todos os anúncios de cigarros. A atitude foi pioneira e corajosa. “Assumimos que a verdade não podia mais ser ignorada”, dizia um dos trechos da campanha lançada à época. “Fumar não é charme, é vício. Não é liberdade, é prisão. Não é estilo, é doença.”

Um dos trechos da campanha dizia: “Fiel a seu ideário de patrocinar e apoiar campanhas que objetivam o maior bem-estar geral, a TRIBUNA DA BAHIA assume a partir de hoje a dianteira da campanha antitabagismo. E o faz com a convicção de que está contribuindo para a conscientização da coletividade e de cada cidadão em particular no tocante a um dos males que corroem insidiosamente a saúde”.

A decisão foi impulsionada por uma palestra do médico José Silveira, fundador do Instituto Bahiano de Reabilitação (IBR), que afirmou: “Deus, em sua santa sabedoria, colocou pelúcias no nariz para filtrar o ar. E o homem, achando que sabe mais, inventa de inalar duas mil e tantas toxinas. Isso é uma estupidez absoluta.”

O atual presidente da Tribuna, Walter Pinheiro, relembra o episódio como um divisor de águas. “Naquela época, nenhum outro veículo da Bahia tomou essa posição. Foi um gesto corajoso de compromisso com a vida. A decisão de Joaci não foi apenas empresarial, foi ética”, afirma. “Abrimos mão de uma fonte de renda relevante em nome de algo muito maior. Fizemos jornalismo com propósito.”

Em discurso recente, Pinheiro foi ainda mais contundente: “O cigarro era promovido como símbolo de sucesso, de poder, de masculinidade. E nós, na Tribuna, dissemos não. Dissemos que não aceitávamos vender doença. A propaganda dizia ‘dê um tempo, fume um cigarro’. Nós dissemos: ‘dê um tempo, mas para você respirar saúde’.”

Cigarro eletrônico: um mal discreto e sem cheiro 

O cenário de combate ao tabaco, no entanto, tem ganhado novas camadas de complexidade. Os cigarros eletrônicos, ou “vapes”, surgiram como uma falsa promessa de redução de danos, mas têm preocupado cada vez mais os órgãos de saúde. Apesar de banidos no Brasil pela Anvisa desde 2009, os dispositivos seguem circulando com facilidade, especialmente entre os jovens.

Com sabores artificiais, design moderno e uma estética tecnológica, os vapes se popularizaram nas redes sociais e vêm seduzindo adolescentes. Dados da Fiocruz apontam que 23% dos jovens entre 13 e 17 anos já experimentaram o cigarro eletrônico. Muitos acreditam, erroneamente, que esses dispositivos não fazem mal — uma percepção incentivada por influenciadores e campanhas veladas de marketing digital.

Estudos recentes demonstram que os cigarros eletrônicos contêm concentrações elevadas de nicotina e compostos tóxicos que afetam diretamente o sistema respiratório, o coração e o cérebro. Casos de doenças como a bronquiolite obliterante, conhecida como “pulmão de pipoca”, vêm sendo registrados com maior frequência. Além disso, o uso contínuo dos vapes já tem causado quadros severos de dependência química precoce.

A Anvisa mantém a proibição da comercialização e propaganda desses produtos, mas a fiscalização é deficiente e a venda continua livremente em lojas físicas e online. O desafio agora é conter uma epidemia com cara de modernidade.

Impacto: O impacto econômico dos cigarros eletrônicos também não é desprezível. Embora os dados ainda sejam recentes, já se calcula que o sistema de saúde pode gastar até R$ 5 bilhões anuais com complicações decorrentes do uso desses dispositivos, caso a tendência atual se mantenha. O problema se agrava com a entrada precoce dos jovens no ciclo do vício, o que pode gerar dependência ao longo de décadas.

No Brasil, o gasto anual com o tabaco representa cerca de 1,5% do PIB, considerando os custos diretos e indiretos. Isso equivale ao triplo da arrecadação com impostos sobre cigarros. A conta não fecha. De cada real arrecadado, três são perdidos com os impactos do cigarro.

Neste Dia Mundial Sem Tabaco, a Tribuna da Bahia reafirma seu compromisso com a saúde pública. Mais de 40 anos depois da histórica campanha de 1980, o jornal mantém viva a convicção de que informar é um ato de cidadania.

E para aqueles que desejam deixar o vício, existem caminhos possíveis. O SUS oferece tratamento gratuito em mais de 3 mil municípios, com apoio de médicos, psicólogos e terapeutas. Há ainda grupos de apoio, como os do Alcoólicos Anônimos adaptados para fumantes, e plataformas digitais como o aplicativo “Pare de Fumar”, do Ministério da Saúde. Práticas como a meditação, a atividade física regular e o acompanhamento nutricional também ajudam no processo de cessação.

Abandonar o cigarro é, mais do que um desafio individual, um gesto coletivo em favor da vida. Seja de papel ou eletrônico, o fumo ainda é uma das principais causas evitáveis de morte no Brasil e no mundo. Respirar saúde, hoje, é também um ato de resistência.

Campanha de 1980 na capa da Tribuna intitulada CONTRA O FUMO

“Fiel a seu ideário de patrocinar e apoiar campanhas que objetivam o maior bem-estar geral, a TRIBUNA DA BAHIA assume a partir de hoje a dianteira da campanha antitabagismo. E o faz com a convicção de que está contribuindo para a conscientização da coletividade e de cada cidadão em particular no tocante a um dos males que corroem insidiosamente a saúde.

As razões que ditam tal atitude são impessoais, sem vinculação a interesses menores. E uma das mais relevantes está intimamente radicada nos ensinamentos da ciência. Pois é a ciência que nos impulsiona neste instante a lançar esta campanha, que é ao mesmo tempo um brado de alerta, contra o fumo. Para animarmos a isso, a palavra de um mestre da ciência médica entre nós, Prof. José Silveira, foi de grande importância. Com os títulos de que é detentor, o Prof. José Silveira brindou o Rotary Club com uma palestra, ontem proferida, em que ressaltou, dentre outras coisas, ser o fumo o maior inimigo do homem e causa, por si mesma, de doenças que na maior parte dos casos determinam-lhe a morte e também o esgotamento de sua energia vital.

Num continente, o nosso nos parece ainda muito atrasado perante os países do chamado Primeiro Mundo, no Brasil não está ainda em voga a orientação contra o uso do fumo, como está em países adiantados, contida subsevenvionadamente nos programas governamentais. Não há por parte da população, em geral, uma ideia higiênico-preventiva do terrível mal, mesmo porque não se têm desenvolvido campanhas esclarecedoras, como se não competisse veicular a higiene perfeita da população. Não é advertir sobre os malefícios do terrível vício que os governos devem intervir, como o inteirado exemplo do que já fazem governos de outros países democráticos, no sentido de obrigar as indústrias fabricantes de cigarros a colocarem nas suas produções a advertência de que fumar é perigoso à saúde. Prevalece lamentavelmente o argumento de que o imposto arrecadado constitui receita substancial, que não pode ser afetada.

Entendemos, porém, que nenhuma receita deve ser incrementada com apoio em algo que só tem concorrência para reduzir-lhe as possibilidades vitais do ser humano. Daí por que a TRIBUNA DA BAHIA, para dar maior expressão à campanha que ora passa a empreender, deixa de veicular, a partir de hoje, qualquer propaganda que estimule o uso do fumo. Assim, estamos deliberados a estar prestando um novo serviço à comunidade, certo de que o exemplo de cada um há de motivar todo um esforço de esclarecimento por parte dos grandes órgãos de comunicação, muito mais que o vício, que o destrói”.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

 

 

 

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