Adormecer ao volante é um dos riscos mais graves nas rodovias brasileiras. Estimativas apontam que a sonolência está presente em até 40% dos acidentes fatais, especialmente nas estradas federais. O alerta é da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), que considera o sono entre as quatro principais causas de mortes no trânsito do país.
Dados levantados pela Abramet, a partir de registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ministério da Saúde, mostram que os números variam conforme os estados e o tipo de via, mas o risco permanece evidente: dirigir com sono incapacita o motorista, aumenta o tempo de reação e favorece colisões frontais e saídas de pista, geralmente de consequências fatais.
Em entrevista à Tribuba da Bahia, o vice-presidente da Abramet, Ricardo Hegele, disse que alguns levantamentos até 40% dos acidentes fatais em rodovias federais têm relação com a sonolência, que pode ser comparável a dirigir alcoolizado. “O sono e a direção veicular é uma combinação extremamente perigosa. Ele reduz a atenção, lentifica as respostas do motorista e pode levar a episódios de micro-sono em que o condutor perde totalmente o controle do veículo, sem sequer acionar os freios. É comparável a dirigir alcoolizado”, explicou.
Apesar da gravidade, especialistas ressaltam que os índices ainda podem estar subestimados. Falta de treinamento de policiais para identificar fadiga, ausência de testes objetivos e subnotificação por parte dos próprios motoristas dificultam medir o real impacto da sonolência. Pesquisas apontam, por exemplo, que quase metade dos condutores profissionais já dormiu ao volante, embora apenas 16% admitam a prática.
O problema é ainda mais crítico entre caminhoneiros e motoristas de ônibus, que enfrentam jornadas longas e prazos apertados. “Se não tiverem uma noite de sono repousante, esses profissionais carregam alto risco de adormecer durante a direção”, explica Hegele. Pessoas com dupla jornada de trabalho e motoristas que sofrem de distúrbios como a apneia obstrutiva do sono também estão mais expostos.
Segundo a Abramet, estudos indicam que condutores com distúrbios do sono têm de duas a três vezes mais chances de se envolver em acidentes. Quando tratados, o risco pode cair até 70%. Por isso, exames médicos periódicos são fundamentais para motoristas de categorias C, D e E, que operam ônibus, caminhões e carretas.
A entidade reforça que não existem soluções rápidas para a sonolência. Café, música alta ou janelas abertas não substituem o repouso. A recomendação é clara e deve-se dormir entre 7 e 8 horas por noite e nunca assumir a direção após dormir menos de cinco. Pausas regulares a cada duas horas de viagem também são essenciais, assim como parar imediatamente e descansar ao sinal de cansaço.
“Para todas as pessoas, a orientação é que não se subestime a questão do sono. O sono é um risco invisível, e se a pessoa não tiver uma boa higiene do sono e respeitar o limite do organismo, o risco de ter um sinistro fatal é muito grande. O sono está entre as quatro principais causas de sinistro de trânsito fatal. Não arrisque sua vida, não arrisque a vida dos outros, e faça uma boa noite de sono antes de pegar a estrada, quer seja um profissional do volante ou não. Não dirija se estiver com sono ou sonolência”, aconselhou o vice-presidente da entidade.
O debate sobre os impactos do sono na direção fará parte do XVI Congresso Brasileiro de Medicina do Tráfego, que acontece de 25 a 28 de setembro, no Centro de Convenções de Salvador. O evento celebra os 45 anos da Abramet e reunirá especialistas de todo o país para discutir saúde, segurança e prevenção no trânsito. A abertura terá cerimônia solene e apresentação da Banda Olodum.
Fonte: Tribuna da Bahia






