De acordo com estudo divulgado em 2023, com base em dados de atendimentos de crianças de 0 a 14 anos, vítimas de agressões por cães, realizados na Unidade de Emergência
No dia 14 de abril deste ano, Lucas Levi dos Santos, de três meses de idade, morreu após ser atacado por um cão da raça pitbull, que era criado no quintal da casa da família, na Região Metropolitana do Recife. Dias antes, outra criança, um bebê de 1 ano e 8 meses, foi mordida na cabeça por um animal da mesma raça, na Grande Vitória.
Em março, no Leme, interior de São Paulo, uma avó brincava com a neta de cinco meses, quando o cão da família entrou na casa e mordeu a criança na cabeça. A bebê não resistiu aos ferimentos e o cão, sem raça definida, tinha características de labrador.
No início do ano, em 23 de janeiro, outra criança, de 8 anos, foi atacada por um pitbull, em Ribeirão das Neves, na grande Belo Horizonte, tendo parte da orelha arrancada. A frequência de casos registrados este ano no país, conforme levantamento feito no portal G1, revelam a gravidade deste quadro e a necessidade de cuidados com a segurança de crianças e animais.
De acordo com estudo divulgado em 2023, com base em dados de atendimentos de crianças de 0 a 14 anos, vítimas de agressões por cães, realizados na Unidade de Emergência Referenciada Infantil do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2019, além de ferimentos agudos, as os acidentes com animais podem causar fraturas, infecções, cicatrizes e traumas psicológicos.
Conforme o estudo, foram identificados 1.012 atendimentos do tipo no período analisado: 65,2% das crianças eram do sexo masculino; as lesões ocorreram com maior frequência na faixa etária de 7 a 14 anos (49,2%); a maioria dos ferimentos localizava-se na cabeça ou no pescoço (37,4%); e em 31,5% dos casos, os ataques se deram na própria casa da criança. Diante deste cenário, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) alerta para o aumento do número de acidentes domésticos, especialmente, em razão do aumento da convivência entre crianças e animais.
Uma pesquisa da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil atualizou os dados sobre os pets no Brasil: são 160,9 milhões, entre cães, gatos, aves, répteis, peixes e pequenos mamíferos. O país ocupa a terceira posição mundial em número de animais de estimação, com 62,2 milhões de cachorros nesta condição.
A SBCP destaca que, muitas vezes, esses acidentes resultam em traumas faciais que necessitam de intervenções cirúrgicas, não apenas para restaurar a estética, mas a funcionalidade e a autoestima da criança. Como explica o cirurgião plástico, Victor Araújo Felzemburgh, presidente da a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – Regional Bahia, os acidentes não acontecem apenas com animais de grande porte.
“O maior número de acidentes, de mordidas, é com animais pequenos. Então, tem raças que, apesar de serem pequenas, foram criadas, evolutivamente, para cuidar de rebanho, de animais, para caçar outros animais de pequeno porte, como aves. Então, instintivamente, esses animais de pequeno porte, às vezes, têm reações. Por isso, não se deve colocar o rosto das crianças próximo desses animais, não só os grandes, mas os pequenos também”, recomenda o médico.
O especialista dá dicas para as famílias, com o intuito de evitar que acidentes aconteçam. “É importante educar as crianças no convívio com os animais, mas sempre sob supervisão. Evitar deixar a criança próximo de animal, principalmente, se for muito pequena”, alerta, pontuando que algumas brincadeiras podem ser interpretadas pelo animal como ameaça e causar lesões.
Sobre os traumas faciais provocados pela mordedura do animal, Felzemburgh esclarece que, muitas vezes, essas lesões são profundas, não cortando somente a pele, mas as estruturas musculares ou nobres do rosto e de outras áreas do corpo. Nestes casos, a cirurgia plástica é necessária para reconstituir esses tecidos, camada por camada, e não somente fechar a pele, pois existe o risco de alguma deformidade no funcionamento do músculo.
Além disso, o médico orienta que as famílias estejam atentas ao calendário vacinal das crianças e dos animais, pois existem algumas bactérias que são comuns à saliva dos animais, o que aumenta o risco de infecção de ferida operatória. E, uma vez ocorrido o acidente, Felzemburgh recomenda que a família mantenha a tranquilidade e tenha cuidado na hora de afastar esses animais, para evitar lesões piores; direcionando a criança para um hospital.
“Mesmo que a lesão seja muito pequena, é importante observar, porque a depender, por exemplo, a mordida de um gato na ponta de um dedo, nos dias seguintes esse dedo pode começar a inchar, a mão começar a inchar, o que na verdade é uma infecção secundária”, explica o cirurgião.
Fonte: Tribuna da Bahia






