Os recursos para oferecer a reabilitação facial são obtidos por meio de doação
Este é o processo no qual Marlene Farias de Menezes, 67 anos, está imersa atualmente, com previsão de conclusão no início de julho. As sequelas que motivam a reabilitação facial foram decorrentes da recidiva do câncer em 2008 – o primeiro tumor surgiu em 1999, foi tratado até a remissão completa e a paciente recebeu um enxerto.
Há 16 anos, Marlene perdeu o globo ocular e as pálpebras superior e inferior do olho esquerdo. Desde então, fez inúmeras tentativas de conseguir a prótese reparadora pelo SUS (Sistema Único de Saúde), sempre sem sucesso. Vale lembrar que essa reabilitação também não é coberta pelos planos de saúde.
Uma nova esperança surgiu em 2018, quando ela viu uma reportagem na TV falando sobre o Instituto Mais Identidade. A Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) só conseguiu uma sede em 2021, mas luta pela ampliação do acesso à reabilitação desde 2016. Marlene é a segunda pessoa da Bahia a ser contemplada.
Marlene foi a São Paulo para fazer a colocação dos pinos de fixação da prótese e agora está em Salvador aguardando a cicatrização. No final de junho ela retornará à capital paulista para realizar a cirurgia de implantação da prótese. “O uso de tampão ocular agride e irrita muito a pele. No tempo de calor, a pele fica muito vermelha”, conta, acrescentando o impacto que a reabilitação terá sobre sua autoestima.
Se tudo correr como planejado, o acesso à reabilitação facial será reforçado na Bahia. O Mais Identidade está alinhando uma parceria com o Hospital Aristides Maltez (HAM), unidade de referência no tratamento de câncer, para simplificar o atendimento de pacientes do estado, com a realização das intervenções em Salvador mesmo. No momento, todas as etapas do tratamento requerem o deslocamento para São Paulo.
Custo elevado
O HAM realiza procedimentos do tipo, mas em escala bastante reduzida, segundo o coordenador do Departamento de Cabeça e Pescoço, Lucas Silva. Ele explica que o custo das próteses é bem elevado e o repasse do SUS é muito baixo, frente ao investimento em material e tecnologia para a produção dessas peças. Uma vez que a parceria seja consolidada, o acesso às próteses deve ser ampliado e treinamentos com a equipe serão realizados.
Embora o público leigo muitas vezes pense nas próteses como soluções estéticas, o resultado é sobretudo funcional. “A gente não se imagina sem um olho, sem o nariz, sem uma orelha. Se você imaginar que, sem isso, a pessoa vai na rua e todo mundo vai ficar ali olhando… Então é reinserção social, você voltar à sua vida normal”, defende.
“Da mesma forma com uma prótese na boca. O paciente precisou tirar o céu da boca, o palato, ele não vai conseguir se alimentar direito, a voz dele vai ficar fanhosa, então com a prótese ele vai ser reabilitado, vai voltar a comer melhor, vai voltar a falar melhor. Então a prótese é reabilitação!”.
Presidente do Instituto Mais Identidade, o cirurgião-dentista Luciano Dib reforça o argumento, comentando ter acompanhado várias histórias de pessoas “que tinham uma atividade de contato com público e não podiam no período em que estavam sem a reabilitação”. Após a colocação das próteses, etapa central do processo, esses professores, recepcionistas e músicos mencionados voltaram a trabalhar normalmente.
Um exemplo é o primeiro paciente atendido pela entidade na Bahia, o assistente social Fábio Eça de Oliveira, 46, morador de Apuarema, a 340 km de Salvador. Após a cirurgia para retirar um tumor no maxilar esquerdo – na quarta recidiva desde o seu primeiro diagnóstico de câncer – ele ficou com a visão monocular e uma mutilação no rosto. Só conseguiu retomar o seu trabalho e sua vida social plena após conseguir a prótese, que não lhe devolveu a visão, mas reabilitou sua face.
Segundo Dib, a parceria com o Aristides Maltez se dará nos moldes já realizados com um hospital de Natal (RN) e o Hospital do Amor, localizado na cidade paulista de Barretos, a pouco mais de 400 quilômetros da capital. “A gente vai até lá, realiza os procedimentos pré-cirúrgicos, os procedimentos de escaneamento da face e vem para São Paulo”, conta.
No retorno ao Instituto, é feita a impressão do protótipo, para então a equipe retornar ao município onde o paciente estava em tratamento e fazer a implantação da prótese. Referindo-se aos casos citados acima, Dib completa: “Fizemos o que a gente podia fazer a distância, depois voltamos para entregar essa nossa tecnologia, que a gente chama de tecnologia Mais Identidade”.
Recursos para próteses são obtidos em doações
Embora a implantação da prótese seja o ponto central do processo de reabilitação, seu sucesso depende de diversas outras etapas, envolvendo uma equipe multidisciplinar. Outro ponto importante é a necessidade de acompanhamento vitalício, pois o indicado é que a prótese passe por manutenção a cada dois anos, período no qual às vezes é necessário até mesmo realizar a troca.
Segundo o presidente do Instituto Mais Identidade, Luciano Dib, o atendimento oferecido pelo Instituto é integral, incluindo cuidado psicológico e serviço social, com a identificação de benefícios aos quais o paciente às vezes não sabia ter direito. “Além da reabilitação física, a gente trabalha muito com o psicossocial, que representa um número grande de atendimentos para cada paciente”, comenta.
A depender da área específica reabilitada pode haver a necessidade de fisioterapia, a exemplo dos casos nos quais o abrir e fechar a boca ficou debilitado após a ocorrência que gerou a demanda por prótese. Nestas situações, conta o cirurgião-dentista, é preciso uma fisioterapia mastigatória.
Atualmente, 40 pessoas do estado de São Paulo estão cadastradas no Instituto à espera de uma prótese, situação compartilhada por 18 moradores de outras partes do Brasil. Dib comenta que a demanda é muito grande, bem superior à capacidade de atendimento da entidade, que desde 2021 reabilitou cerca de 200 brasileiros oriundos de diversos estados.
O processo digital para desenvolvimento das próteses simplificou o processo e reduziu o tempo necessário, mas os custos de produção continuam sendo elevados.
“Os materiais são importados, corantes, pigmentos, o próprio silicone”, ressalta Dib, acrescentando que o trabalho de reabilitação envolve uma equipe de quase 20 pessoas dedicadas exclusivamente ao atendimento dos pacientes no Instituto.
Os recursos para oferecer a reabilitação facial são obtidos por meio de doação de pessoas físicas e jurídicas. Os interessados em apoiar o Mais Identidade devem acessar o site maisidentidade.org.br.
Fonte: A Tarde






