Enquanto países europeus tiveram mais de um século para se preparar, o Brasil viverá o mesmo processo em cerca de 30 anos
O ativista holândes Teun Toebes percorreu 11 países de quatro continentes para saber como vivem as pessoas com demência no mundo. Durante o Congresso Brain 2024: Cérebro, Comportamento e Emoções, realizado no Rio de Janeiro no fim de junho, ele e o diretor Jonathan de Jong apresentaram um trecho do documentário Human Forever e trouxeram um questionamento: onde você gostaria de viver e ser cuidado caso envelheça com demência?
No Brasil, com o envelhecimento acelerado da população – enquanto países europeus tiveram mais de um século para se preparar, o Brasil viverá o mesmo processo em cerca de 30 anos -, a tendência também é de crescimento de casos, o que ressalta a importância do questionamento de Toebes e Jong.
Toebes acredita que não há uma única resposta e que nenhum país deve simplesmente copiar os modelos de outros. Durante o congresso, ele questionou o modelo adotado em países ricos europeus, de instituições de cuidados de longa duração específicos para a demência, a maioria com portões fechados para o mundo externo. Também frisou que o modelo de cuidado dentro da comunidade, nas famílias, como na maioria dos países latinos e na África, tem riquezas e não deve ser desprezado.
“Se realmente ouvirmos as pessoas com demência, elas mostrarão que não precisam apenas de bons cuidados. Não se trata (só) da qualidade do cuidado. O objetivo principal é a qualidade de vida”, defendeu. “Viver juntos é a solução para sobreviver, é a resposta. O que muitas vezes pensamos na Holanda é que não precisamos uns dos outros, que somos todos indivíduos. Se nos vemos (apenas) como indivíduos, não podemos criar uma sociedade.”
Conexão também faz parte da resposta do geriatra João Carlos Barbosa Machado, professor e coordenador do internato de Saúde do Idoso da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. “Às vezes, as pessoas estão em casa com a família, mas estão no canto do quarto, ninguém cuida delas”, disse. “Acho que o movimento mais importante que precisamos fazer para mudar as coisas, independentemente da cultura, é estabelecer conexões com as pessoas.”
Tanto especialistas que participaram do congresso quanto aqueles consultados posteriormente pelo Estadão concordam que os cuidados precisam ser centrados no paciente, ou seja, devem levar em conta quem a pessoa é, suas habilidades e preferências. Mas onde prestar esse cuidado?
“Só vamos realmente conseguir disponibilizar um cuidado centrado na pessoa, independentemente de ser no contexto comunitário ou de uma instituição, quando engajarmos toda a sociedade e os interesses políticos para resolver a situação”, adianta o geriatra Patrick Alexander Wachholz, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Fonte: Tribuna da Bahia






