Se medidas para conter a redução de gases e o desmatamento não forem tomadas, a situação vai piorar
A onda de calor, que tem deixado a temperatura insuportável em várias cidades do Brasil, tende a piorar caso os poderes públicos não tomem, urgentemente, medidas saúde pública e urbanização, redução na emissão de gases, nas queimadas e na destruição de áreas verdes. Além da piora na qualidade de vida, especialistas alertam para os graves riscos à saúde da população, como alterações no organismo e problemas no coração, caso o calor continue a aumentar nos próximos anos.
Em Salvador, a situação também é crítica. A Climate Central, organização sem fins lucrativos que difunde trabalhos científicos e notícias sobre o clima, publicou um relatório recente que coloca a capital baiana em quinto lugar no ranking de cidades mais aquecidas do Brasil em comparação com uma média histórica.
Realizado em 678 cidades de 175 países, o estudo fez uma comparação entre as médias registradas em Salvador de 1991 a 2020 e entre dezembro de 2023 e fevereiro deste ano. O aumento da temperatura foi de 0,84º C, colocando a cidade em quinto lugar. Este ano, em janeiro a sensação térmica chegou a 36º C em janeiro deste ano À frente da capital baiana, Vila Velha (1,15°C de aumento), Goiânia, (0,99°C), Campinas, (0,93°C) e Recife (0,90°C)
Embora distante do Rio de Janeiro, onde a sensação térmica chegou a mais de 60º C neste mês de março, a realidade da capital baiana aponta para a intensificação do problema nos próximos anos caso não sejam tomadas providências, entre elas, o replantio constante de árvores, a preservação do meio-ambiente e das áreas verdes.
A meteorologista Cláudia Valéria, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explica que a capital baiana, desde o segundo semestre, vem tendo as temperaturas máximas superiores à média histórica.
“Na verdade a gente vem com essas temperaturas elevadas acima da média há um bom tempo, durante todo o segundo semestre de 2023”, afirma.
Sobre a agenda ambiental no mundo que diariamente alerta para o aquecimento global, para as mudanças climáticas e para a necessidade de autoridades tomarem providências, a especialista do Inmet é taxativa: “O que precisa ser feito é sair do discurso e ir pra prática. Já deveríamos ter saído há muito tempo do discurso e passar de fato a trabalhar em como vamos conviver com essa realidade”, diz.
Para o gestor ambiental Eduardo Zanatta, a capital baiana carece de um programa de arborização. “Tem investido em obras que retiram árvores e constroem vias edificadas privilegiando os veículos, nas praias também se evidencia obras e cimentados em detrimento da arborização, os parques estão em condições péssimas de uso e segurança e a cidade carece de fontes e serviço de água potável”, destaca.
Excesso de calor pode causar morte, principalmente de idosos e crianças
Publicado ano passado na revista científica The Lancet, um estudo mostrou que mortes relacionadas ao calor aumentaram 85% desde a década de 1990 em pessoas com mais de 65 anos E se a temperatura global aumentar 2ºC – conforme a pesquisa – o número de mortes relacionadas ao calor aumentará em 370% até 2050.
Desidratação, quedas de pressão, arritmia cardíaca., choque térmico são alguns dos problemas de saúde que podem afetar quem está exposto ao calor extremo. E todos podem causar a morte.
O cardiologista Marcos Barojas, diretor de prevenção cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC-Bahia), explica que as temperaturas altas podem levar à dilatação de vasos sanguíneos e artérias. “Há camadas de risco. Do mais cotidiano ao mais complexo. Os vasos para conseguirem manter a temperatura do corpo se abrem mais para passar mais sangue, pois faz parte da fisiologia do ser humano fazer o equilíbrio térmico. Quando o vaso dilata para fazer a resposta, automaticamente acaba fazendo a pressão interna reduzir” diz ele.
Segundo Barojas, qualquer mudança de 1 a 2 grau, para cima ou para baixo, “gera uma repercussão muito ruim”. O cardiologista alerta que determinados grupos estão mais vulneráveis aos riscos. Além dos idosos – que num caso de queda de pressão pode cair e sofrer uma fratura ou um traumatismo craniano, por exemplo – existem os trabalhadores de rua, que estão expostos ao sol, como os de limpeza, policiais, agentes de trânsito, dentre outros.
“Os chamados choque térmicos sofridos por pessoas que se expõem a alta intensidade de irradiação térmica ficando embaixo do sol. No choque térmico, o corpo começa a reagir de um jeito que não consegue frear. E esse mecanismo de ação agressiva pode culminar em morte”, pontua.
Condição cardíaca que provoca alterações no ritmo do coração, a arritmia pode caracteriza-se tanto por batimentos acelerados (taquicardia) como lentos demais (bradicardia). “Pode-se ter uma parada cardíaca letal em cenário de excesso de calor”, acrescenta o médico.
Fonte: Tribuna da Bahia






