“Bom, sempre foi chato. Na primeira fase da minha vida principalmente, muitas internações por infecções respiratórias (causadas pela anemia). A partir da minha adolescência, melhorou muito a minha relação com a anemia, já que passei a não ter mais internações. Cheguei a ficar de 2013 até este ano sem qualquer ocorrência por conta da anemia, inclusive sou um paciente muito peculiar já que nunca tive dores causadas pela falciforme. Me sinto uma pessoa comum, que infelizmente tem uma doença incurável, mas que não me impede de realizar minhas atividades laborais e estudos”.Esta é o relato do universitário Jeferson Silva, em entrevista a Tribuna da Bahia. Ele convive com a anemia falciforme e recentemente esteve internado devido a enfermidade.
A doença, que é pouco falada e muitas vezes considerada invisível costuma ser hereditária, incurável eatinge mais as pessoas negras. Ela causa alteração nos glóbulos vermelhos e com isso provoca infecções, fadiga e dores. Só na Bahia, estima-se que 30 mil pessoas possuam a condição que provoca anemia crônica e episódios frequentes de dor severa, decorrentes da má circulação sanguínea, segundo a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab).
Pela população baiana ter mais de 76% de pessoas negras, o estado tem grande incidência da doença. No Brasil, estima-se que, atualmente, há entre 60 mil e 100 mil pacientes com doença falciforme. E a taxa de mortalidade no país ainda é alta. Cerca de 30 mil pessoas morrem todo ano devido a doença.
Apesar de ter sido descoberta há mais de um século, até 2005 não existiam protocolos no Sistema Único de Saúde (SUS) com orientações para o tratamento da doença. A partir daquele ano foram estabelecidos protocolos de tratamento de cuidados na rede de hemocentros. Então de 2005 em diante a doença ganhou mais visibilidade dentro da emergência dos hospitais e nos ambulatórios.
A especialista Ana Carla Franco, que faz parte do Núcleo de Oncologia da Bahia (NOB), em conversa com a Tribuna da Bahia afirmou que de forma geral, existem dois casos que apresentam os sintomas”. A crise álgica e a hemólise. A crise álgica é a mais comum das complicações e muito frequente nas unidades básicas e de emergência. Geralmente caracterizada por dor especialmente nos membros inferiores e superiores, mas pode acometer qualquer região. Normalmente, é uma dor que pode ter uma intensidade variável, podendo ser intensa e incapacitante com indicação de internação, em alguns casos. Aliada a ela, pode ainda ocorrer febre, fadiga, cansaço, sinais inflamatórios locais”, explicou.
Ainda segundo a médica, já a hemólise em geral vem muito associada a crise álgica, nada mais é do que a “quebra” das hemácias alteradas no seu formato, aquelas chamadas de foice. “Isso provoca a chamada anemia hemolítica e junto com ela geralmente temos: icterícia (tom amarelado das mucosas) decorrente do aumento das bilirrubinas, sintomas secundários à anemia como: fraqueza, cansaço aos esforços, palpitações, falta de ar ofendo levar em casos graves a uma anemia aguda grave, com aumento da mortalidade”, pontua.
Ana Carla ainda explica que existem outras complicações mais específicas como: priapismo, síndrome torácica aguda, sequestro esplênico e síndrome mão pé. “Cada uma com sua peculiaridade e apresentação específica. Muito importante no contexto da crise identificar o fator desencadeante, que pode ser: infecção, desidratação, trauma, frio, hipóxia e idiopático, ou seja, sem causa definida”, ressalta a hematologista.
Referente aos tratamentos para a doença que infelizmente não possui cura, a medica destaca alguns tipos. “Dentre os tratamentos temos: analgésicos, uso de ácido fólico (fundamental em casos de hemólise crônicas), uso de hemocomponentes. Mas aqui vale um destaque, o cuidado com uso em excesso de anti-inflamatórios. Eles podem ser usados na crise, mas por tempo limitado.A função renal do paciente com doença falciforme pode ser comprometida e piora com o uso destas medicações.O uso de hidroxiureia, pode ser um aliado no tratamento e é disponível na rede pública. Devendo ser avaliado o uso individualmente e pode ser uma excelente opção para reduzir as complicações da doença falciforme.”, explica a especialista.
A hematologista ainda comenta sobre algumas novidades para o tratamento da doença. “Novos tratamentos estão surgindo no mercado, assim como pesquisas nacionais. Visando assim ampliar o arsenal terapêutico, ainda muito restrito no nosso país. Dentre eles, destaco um anticorpo monoclonal chamado Crizanlizumabe, já aprovado pela Anvisa e FDA. No ano de 2023 tem seu uso clínico ainda restrito na prática clínica, mas pode ser um promissor tratamento. E o transplante de medula óssea halogênico, que ainda é restrito a grandes centros de transplantes em função das limitações das indicações e dos riscos associados ao procedimento”, concluiu a medica.
Fonte: Tribuna da Bahia






