Associação americana desencoraja usar apenas IMC para medir peso e saúde

A Associação Médica Americana aprovou a adoção de uma recomendação que encoraja médicos a não confiar apenas no IMC (índice de massa corporal), métrica usada há muito tempo, mas potencialmente enganosa, para avaliar peso e saúde. A diretriz reconhece oficialmente o “dano histórico” do IMC e afirma que a métrica foi usada “para exclusão racista”.

“É uma mudança muito grande”, diz Cynthia Romero, diretora do Instituto M. Foscue Brock para Comunidade e Saúde Global da Escola de Medicina Eastern Virginia, que participou do desenvolvimento da diretriz americana. “Agora temos que ser realmente mais conscientes e mais holísticos quando se trata de atenção ao paciente.”

Associação Médica Americana recomenda que o IMC não seja usado sozinho para medir peso e saúde – MediaRec/Adobe Stock

A ação pode ser um primeiro passo para se abandonar um modelo de medicina que exorta as pessoas acima de um determinado IMC a perder peso, sem levar em conta o preço que essas medidas de emagrecimento podem ter, afirma Scott Hagan, professor assistente de medicina na Universidade de Washington, que estudou a obesidade e não assinou a recomendação. “É realmente muito importante”, diz ele.

A entidade, um dos maiores grupos médicos dos EUA, agora recomendará que os médicos não usem apenas o IMC para avaliar se um paciente está com peso saudável. Eles sugeriram que os médicos também considerem fatores como a gordura visceral da pessoa (aquela armazenada na cavidade abdominal e ao redor dos órgãos); o índice de adiposidade corporal (cálculo que utiliza circunferência e altura do quadril); a porcentagem de gordura, ossos e músculos no corpo; e fatores genéticos e metabólicos, como açúcares anormais no sangue ou testes de tireoide.

“O IMC é apenas uma medida muito ruim da saúde geral”, diz Hagan. “Alguém com um IMC elevado pode ser perfeitamente saudável.”

E onde você carrega o peso é importante, afirma Leslie Heinberg, diretora do Centro Enterprise de Gestão de Peso da Clínica Cleveland. A gordura abdominal está associada a taxas mais altas de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, em comparação com a gordura ao redor dos quadris, diz ela, uma nuance que a métrica não consegue captar.

“Existem inúmeras preocupações com a forma como o IMC tem sido usado para medir a gordura corporal e diagnosticar a obesidade, mas alguns médicos acham que é uma medida útil em certos cenários”, escreveu em um comunicado Jack Resneck Jr., que deixou o cargo de presidente da associação este mês, acrescentando que os profissionais devem entender os benefícios e as limitações da métrica.

Em nível populacional, o IMC é “provavelmente o melhor que podemos fazer” na avaliação de grandes grupos de pessoas, diz Iliya Gutin, oficial de programa das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina e pesquisadora afiliada da Universidade do Texas em Austin, que também estudou a métrica e afir,a que aplaude a nova recomendação. Ela também é barata e eficiente.

Mas o IMC “não é esse número mágico ou poderoso que determina quão saudável ou doente alguém vai ficar”, diz A. Janet Tomiyama, professora de psicologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que estudou a métrica e afirma que estava “em choque” sobre a nova política.

“Durante muito tempo estive nessa situação de imperador sem roupas, onde simplesmente não conseguia entender por que médicos realmente inteligentes continuavam confiando em algo que é claramente tão falho.”

A nova indicação também destaca que o IMC foi baseado principalmente em dados extraídos de gerações anteriores de brancos não hispânicos, dificultando a aplicação da medida a uma população mais ampla.

Apesar da resistência contra a sugestão, ela permaneceu amplamente utilizada.

“Muitos de nossos padrões e diretrizes foram construídos em torno dela”, afirma Gutin. “Quando isso acontece, é muito difícil mudar a inércia.”

 

Fonte: Agência Brasil

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