Transplante de coração está suspenso na Bahia há quase 2 anos
A delicada situação pela qual passa o apresentador Fausto Silva, internado desde 5 de agosto no hospital Albert Einstein para tratamento de insuficiência cardíaca e atualmente sob cuidados ostensivos diante do agravamento do quadro, trouxe novamente à tona o problema que o país vive acerca da realização de transplantes cardíacos pelo SUS. A necessidade de mais doadores, de centros transplantadores públicos e unidades de saúde especializados no tratamento de doenças como insuficiência cardíaca e miocardite – infecção viral que pode enfraquecer o coração e levar a situações graves. Além disso, traz também o debate de mais políticas públicas de saúde para agilizar o andamento das filas. O transplante cardíaco em unidades particulares custa cerca de 40 mil.
Um levantamento atualizado em 16 de agosto pelo Ministério de Saúde aponta que 65.911 pessoas esperam por transplante no Brasil: o de coração tem 386 pacientes á espera, e Faustão é uma delas.
Na Bahia, por exemplo, não tem, no momento, hospitais que estejam realizando o procedimento cardíaco há pelo menos dois anos. Segundo o coordenador do Sistema Estadual de Transplantes, Eraldo Moura, na década de 1990 inicialmente o Hospital Português realizada esse tipo de cirurgia, e em torno de 2012 o projeto foi reiniciado no Hospital Santa Izabel. “Em 2016 e 2017 o hospital Ana Nery a fazer. Nos últimos dois anos não realizamos. Teve a pandemia e agora estamos na fase de reativação do transplante cardíaco no Estado”, diz.
O coordenador do Sistema Estadual explica ainda que na Bahia se faz transplante de fígado, rim, córnea e medula óssea, mas no caso do coração os pacientes são encaminhados para outros estados e o custeio fica todo a cargo do poder público, tanto da transferência, da viagem e da hospedagem dele e do acompanhante. Avaliamos aqui, então a partir daí o paciente se cadastra no Tratamento Fora do Domicílio (TFD. Agora que vamos reativando o transplante, a equipe vai visitar os pacientes. O Ana Nery acompanha o pré e o pró”, informa.
O tempo médio, continua o especialista, é de seis meses e um ano. “Tudo depende da compatibilidade sanguínea do doador com o paciente. Quando não ocorre a tempo tem chance de morrer precocemente e em 50% dos casos isso acontece”.
Importante trazer sempre à tona o fato de que se não tiver doador, não tem transplante. Como não há a realização do procedimento de transplante cardíaco, não tem números sobre. Até o fechamento desta edição, o dado de Tratamento Fora de Domicílio ainda não havia sido repassado, embora exista, conforme o coordenador que garantiu repassar as informações o mais breve possível.
Este ano, de janeiro a julho, de doação de múltiplos órgãos, como pulmão e fígado, houve 87 doadores. De córnea, 330. “Numero muito abaixo da capacidade, por isso que estamos trabalhando muito com o estado para ampliar a quantidade de doadores. Mostrar a importância da doação. O Estado quando credencia uma equipe habilitada para avaliar e escrever os pacientes na fila. Hoje os transplantes que mais fazemos são o renal, de fígado, de córnea e medula óssea”, explica Eraldo.
De acordo com o cirurgião cardiovascular Sidnei Nardeli, coordenador do Projeto de Transplantes Cardíaco do Hospital IBR, em Vitória da Conquista, existe um número elevado de pessoas que necessitam do procedimento e por isso Bahia precisa avançar com um centro transplantador e hospitais especializados em doenças como insuficiência cardíaca. “Não existe e a gente acaba perdendo órgãos que poderiam ser usados para transplantes e acabam sendo utilizados para uma central de válvulas. Isso é lamentável porque acaba que a gente tem que ficar mandando pacientes pra fora. Já tentamos montar um centro de transplante em Conquista, credenciamos hospital e por questões administrativas não aconteceu”, conta. O especialista pontua que as válvulas retiradas do coração servem para pacientes que não estão em estágio avançado das doenças cardíacas, sendo possível serem utilizada para uma prótese, uma revascularização do miocárdio, pontes de safena e melhorar a isquemia.
Nardeli destaca, ainda, que uma das maiores incidências da insuficiência cardíaca é provocada por causa da febre reumática. “Somos um país em desenvolvimento que tem muita febre reumática e eles desenvolvem muita insuficiência. Também o tratamento mal feito de infartos, doenças tem como consequência o agravamento dos quadros e a necessidade de transplante. É uma questão de saúde pública e é complexa. O custo é caro, e varia de caso pra caso, e isso não estimula os centros a montarem os serviços de transplante. O estado tem política de complementação de valores, mas é insuficiente, precisa criar leitos específicos. Esses pacientes as vezes ficam dois ou três meses internados”.
Além de todas as problemáticas, no caso da Bahia, ainda tem a logística de ter que levar o coração até o estado que o transplante vá ocorrer. “O tempo que se tem de reimplantar o coração e de fazer funcionar em média é de quatro horas. Os outros órgãos podem ter 12 horas de espera. A logística aérea é muito ruim’, declara.
Fonte: Tribuna da Bahia






