As redes sociais são palco de tendências que se alastram, de hábitos que se popularizam, especialmente, impulsionados pela influência de celebridades. Atualmente, uma trend que surgiu na China e Coreia do Sul vem conquistando outras partes do mundo e entre os apoiadores, estão nomes como Neymar e Carolina Dieckman, cujas imagens utilizando chupetas circulam nas redes sociais.
Acontece que o uso do acessório por adultos é uma tendência que vem sendo justificada como recurso para alívio da ansiedade e do estresse. No entanto, especialistas alertam para os riscos da prática na fase adulta, que pode gerar danos psicológicos, sociais e físicos.
Como alerta o psiquiatra do Hospital Mater Dei Salvador, Vinicius Pedreira, o comportamento pode estar associado à infantilização do adulto. Para o especialista, a tendência está relacionada não apenas à regressão de uma sociedade fragilizada, ou seja, ao retorno a uma fase de oralidade da primeira infância, mas à exploração do fator fofura, que é chamado Kinder Schema. “Há uma tendência à exploração desse fator fofura e a chupeta remete a isso, a uma infância, a uma criança, um cuidado, e aí vai ser mercantilizado”, afirma. De acordo com o médico, a utilização da chupeta pode mascarar sintomas de ansiedade, criar dependência e levar a um tipo de irritabilidade, alterações do humor, dentre outras situações.
O psiquiatra indica outras alternativas para controle da ansiedade e alívio do estresse e aponta ainda que o uso de chupetas por crianças, por exemplo, aumenta o risco em cinco vezes de desenvolvimento do tabagismo na vida adulta. “Então, por que a gente não investe em alimentos saudáveis”, questiona, sugerindo o uso do chiclete sem açúcar e o consumo de bastonete de cenoura como ato mastigatório.
O uso das chupetas por pessoas na fase adulta também é objeto de análise da terapeuta parental Gabi Moutinho, que afirma que, independentemente de qual seja o tipo de objeto que o adulto esteja utilizando para autorregular as suas emoções, o mais importante é identificar a origem dessa desregulação. “Poderia ser qualquer outro objeto. Em se tratando da chupeta, se torna um pouco mais complexo, porque é um objeto utilizado por crianças”, explica a especialista, questionando a origem desse comportamento, que pode ser decorrente de uma carência afetiva.
Para Moutinho, a chupeta em si não é um problema. “Quando a gente fala de autorregulação, o cérebro está buscando equilíbrio e segurança. Então, ele vai buscar formas, sentimentos, sensações, e tudo isso em uma região muito específica do cérebro chamada de hipotálamo”, afirma a terapeuta.
Ao utilizar este tipo de acessório, o adulto estaria acessando memórias que trazem uma sensação de proteção e segurança, conforme Moutinho. A especialista orienta que existem perguntas a serem elucidadas e o foco não deve ser a crítica ao comportamento do adulto, mas um olhar profundo para a busca, neste objeto, da segurança que ele não está conseguindo alcançar sozinho.
Prejuízos à saúde bucal
Especialistas em saúde bucal também estão atentos aos riscos do uso de chupetas por pessoas adultas. A ortodontista Adriana Libório, considera esse “modismo” preocupante, especialmente pela ausência de embasamento e desconhecimento, por parte da população, dos problemas e consequências desse ato.
Ela explica que o uso de chupetas por crianças é recomendado, no máximo, até os três anos de idade, devido à ocorrência de problemas intraorais relacionados à potência da sucção, como a mordida aberta. A longo prazo, ainda de acordo com Libório, as consequências podem ser desde disfunções esqueléticas, a problemas oclusais, estéticos e funcionais, de postura lingual e, até, respiratórios.
“São inúmeros problemas, desserviços que um simples hábito, muitas vezes, que a pessoa exerce por um modismo, pode vir a causar, tendo que ter, futuramente, a interceptação de profissionais de diversas áreas”, destaca, citando ortodontista, psicólogo, fonoaudiólogo e otorrinolaringologista.
Como adiciona a odontóloga Karina Abbehusen, a sucção que é realizada com o uso de uma chupeta é um hábito parafuncional para um adulto, que já tem suas estruturas sólidas formadas e devidamente calcificadas. “Osso alveolar e dentes sofrem carga de esforço repetitivo, que causa apinhamento dos dentes inferiores, projeção dos dentes antero superiores e mau posicionamento da língua. A sucção neste formato, quando realizada por bebês, podem ter seus efeitos aplacados quando o estímulo é removido, em virtude da movimentação de crescimento ósseo e dos dentes próprios da infância”, detalha, em linhas funcionais, a especialista.
A cirurgiã-dentista Fabiana Midlej reforça que o hábito pode trazer sérios prejuízos para a saúde bucal e, principalmente, para a Articulação Temporomandibular (ATM) – região responsável pelos movimentos de mastigação, fala e abertura da boca. Segundo a especialista em disfunção temporomandibular e dor orofacial, a pressão exercida pela chupeta pode, além de entortar os dentes e alterar a mordida, sobrecarregar a ATM, provocando estalos, dores faciais, e até dificuldade para mastigar ou falar.
“Manter a chupeta na vida adulta não é apenas uma excentricidade, mas um risco real para dentes, gengivas e as articulações temporomandibulares. A prevenção começa com a informação e, sempre que houver dificuldade em abandonar o hábito, é essencial buscar apoio profissional”, orienta Midlej.
Como acrescenta a cirurgiã, o uso frequente da chupeta tem consequências que vão além da dor, pois está relacionado a problemas respiratórios e a desequilíbrios musculares. Segundo a especialista, em muitos casos, pacientes precisam ser submetidos a tratamentos odontológicos longos e complexos.
Fonte: Tribuna da Bahia





