No mês de conscientização sobre a prevenção ao suicídio, especialistas destacam um ponto muitas vezes negligenciado: o quanto o trabalho pode ser uma poderosa ferramenta de promoção da saúde mental — desde que bem orientado, humano e significativo. “O trabalho ocupa grande parte do nosso dia, então precisa ser um espaço que construa autoestima, pertencimento e realização”, afirma a médica do trabalho, escritora e palestrante, Ana Paula Teixeira.
De acordo com ela, quando o ambiente laboral é acolhedor, com metas claras, escuta ativa, desafios motivadores e reconhecimento, ele se torna um fator de proteção emocional. “Funcionários que se sentem valorizados tendem a ter mais iniciativa, criatividade e bem-estar”, diz. Por isso, investir em qualidade de vida no trabalho não é só responsabilidade social — é estratégia de saúde coletiva e desempenho sustentável.
Só para ter uma ideia, somente no ano passado, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), registrou-se mais de 700 mil suicídios em todo o mundo, sem contar as subnotificações. O número no Brasil chega a aproximadamente 14 mil casos por ano, ou seja, a cada dia, em média 38 pessoas tiram a própria vida.
Os grupos mais vulneráveis incluem homens, pessoas de 21 a 54 anos e indivíduos com formação universitária. Ocupações com maior exposição a risco incluem profissionais da saúde e cargos de gestão — reflexo do alto nível de pressão, responsabilidade e, muitas vezes, da cultura de invulnerabilidade.
Um estudo com dados de 20 países mostrou que médicas mulheres têm uma taxa de suicídio 76% maior do que a população geral. No caso dos médicos homens, esse número chega a 81% maior em relação a outras profissões. Já entre trabalhadores agrícolas, os riscos estão ligados a fatores como isolamento social, pobreza, exposição a pesticidas e pressão cultural relacionada à masculinidade.
Além disso, fatores como depressão, ansiedade, uso de álcool ou drogas, traumas na infância, doenças crônicas, luto, conflitos de relacionamento, viver sozinho, desemprego, estresse financeiro e histórico familiar também estão entre os principais gatilhos para o comportamento suicida. Situações como bullying, assédio moral, humilhação e rejeição social aumentam ainda mais a vulnerabilidade.
Outro grupo em situação de risco é o dos trabalhadores agrícolas, devido ao isolamento social, acesso facilitado a pesticidas, pobreza e forte carga de masculinidade. Problemas financeiros, depressão prévia, despejo ou perda de moradia, estresse e esgotamento emocional também estão entre os principais fatores associados ao suicídio relacionado ao trabalho.
Por isso, é preciso se atentar a sinais, buscar autoconhecimento, ter uma rede de apoio e procurar especialistas na área que possam amparar essas pessoas e evitar agravos. Por outro lado, é preciso que os líderes compreendam que essa realidade está, cada vez, mais presente na sociedade e passem a implementar planos estratégicos que atendam às questões psicossociais dos trabalhadores. “Construção que eu, como consultora, estou aberta para contribuir e estimular instituições que precisarem deste norte”, garante a especialista.
São através de palestras, consultorias e campanhas que podem ser implementadas pelas empresas, que Ana Paula Teixeira, também com expertise em Saúde Mental e Bem-estar, consegue chamar a atenção dos empresários, na tentativa de melhorar resultados pensando na ampliação de práticas que motivem os funcionários. “Se o trabalhador não rende, não há resultado. E se não há resultado, não há lucro. A matemática é simples”, pontua.
O editor de imagens, José Santos (nome fictício), é prova de que o desgaste causado pela cobrança extrema pode causar gatilhos e até levar a ideias suicidas. “Eu sempre sofri com a depressão. Mas, no último trabalho, eu senti uma piora substancial. Era tanta pressão, tanta desvalorização do produto entregue que eu me sentia um nada. Chegava em casa exausto psicologicamente, não conseguia dar atenção ao meu filho, à minha família; e, também, comecei a ter problemas com produtividade”, relata.
Ao contrário de muitos, José Santos conseguiu ver os sinais de alerta de que algo não estava fluindo bem. Ele buscou atendimento especializado, realizou tratamento experimental e, hoje, como ele mesmo diz, é “outra pessoa”. Para Ana Paula Teixeira, o exemplo de José é de um em cada mil pessoas com o mesmo quadro. Por isso, alerta de que estar em um ambiente de trabalho adequado , ter um emprego tem um efeito protetor comparável ao de praticar atividade física ou morar com um parceiro. Essa perspectiva positiva desafia a ideia de que o trabalho é inerentemente nocivo, reforçando o seu papel como um pilar para a saúde e a longevidade.