Bahia é líder no Nordeste em casos de internações por envenenamento

No último mês de julho, Adriana dos Santos Gomes foi condenada a 47 anos de prisão pela morte do marido e de um amigo dele, por envenenamento, em Juazeiro, no ano de 2023. Em fevereiro deste ano, duas crianças foram encontradas mortas, no bairro de Valéria, em Salvador, após comerem gelatina que estaria envenenada.

Casos como estes mais frequentes do que se imagina, é o que revela a Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE). Segundo a entidade, em 10 anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou, em todo o país, 45.511 atendimentos em prontos-socorros relacionados a envenenamentos que evoluíram para internação, em alguns casos, com evolução para óbito.

A Bahia figura como estado com maior número de casos registrados no Nordeste: dados do Ministério da Saúde apontam que dos 7.080 casos de internação por envenenamento (intoxicação) acidental ou intencional, por exposição a substâncias nocivas, 2.274 aconteceram na Bahia, entre 2015 e 2024. A análise regional dos atendimentos mostra que o Sudeste concentra quase metade de todos os casos registrados no país, com mais de 19 mil ocorrências em dez anos: São Paulo responde sozinho por 10.161 registros, seguido de Minas Gerais (6.154).

O levantamento inédito da ABRAMEDE aponta ainda que, neste período, em todo o país, 3.461 pacientes internados sofreram intoxicação proposital, causada por terceiros. Como explica Camila Lunardi, presidente da entidade, “a facilidade de acesso a venenos, a falta de fiscalização e de regulamentação, a impunidade e o uso em contextos íntimos tornam o envenenamento uma arma silenciosa e eficaz”.

Com base na série histórica é possível estimar uma média de 4.551 casos de envenenamento ao ano, entre 2009 e 2024, o que representa em torno de 379 registros ao mês ou 12,6 casos ao dia no Brasil. “Isso significa que a cada duas horas, uma pessoa deu entrada numa emergência em consequência de ingestão de substâncias tóxicas ou que causaram reações graves dentro do período analisado”, alerta a associação.

Alguns casos de repercussão nacional são citados pela ABRAMEDE, que reforça a necessidade de ampliar a vigilância, a prevenção e a qualificação dos profissionais para o atendimento imediato desses casos. Em dezembro de 2024, por exemplo, quatro pessoas da mesma família morreram em Torres (RS) após consumirem um bolo contaminado com arsênio. Já no início deste ano, a ceia de Réveillon em Parnaíba (PI) terminou em tragédia quando uma refeição adulterada com inseticida deixou nove intoxicados, sendo cinco mortos e quatro sobreviventes.

“Nos últimos dois anos, observamos um crescimento preocupante das intoxicações que evoluíram para internação. Em muitos episódios, a substância responsável não chega a ser identificada. No entanto, os dados mostram o quanto é indispensável a atuação rápida e precisa do médico emergencista, que está na linha de frente de situações críticas”, afirma Lunardi. Causas e socorro imediato

Embora a maioria dos registros se concentre em categorias inespecíficas, como drogas e substâncias químicas não determinadas, o levantamento também mapeou as principais causas identificadas nos episódios acidentais. Nesse recorte, os envenenamentos por exposição a analgésicos e medicamentos para aliviar dor, febre e inflamação lideram a lista, com 2.225 casos. Na sequência, aparecem os episódios envolvendo pesticidas (1.830), álcool por causas não determinadas (1.954) e anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos (1.941). Os envenenamentos relacionados a drogas, medicamentos e substâncias biológicas não especificadas (6.407 casos), a produtos químicos não especificados (6.556) e a substâncias químicas nocivas não especificadas (5.104) aparecem no topo da lista.

Conforme salienta a coordenadora do Comitê de Toxicologia da ABRAMEDE, Juliana Sartorelo, o atendimento ao paciente envenenado é sempre uma corrida contra o tempo. “A prioridade não é identificar o intoxicante, mas garantir o suporte de vida adequado. Por isso a capacitação da equipe impacta profundamente no atendimento. Garantir via aérea, ventilação e circulação é a base para que o paciente sobreviva. Só depois, com ele estabilizado, buscamos informações que possam direcionar o tratamento específico”, disse.

 

Fonte: Tribuna da Bahia