iCS reúne jornalistas e cientistas para discutir emergência climática

O impacto das mudanças climáticas e os desafios de comunicar a crise de forma clara e engajadora foi o ponto central da segunda edição do seminário ‘A Socioeconomia do Clima’, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com a e-Mundi. Realizado no Rio de Janeiro na terça-feira (26), o evento integrou a programação da Rio Climate Action Week e abriu espaço para um diálogo internacional sobre emergência climática e o papel do jornalismo na conscientização da população e na construção de soluções para um futuro sustentável.

Na tarde de terça-feira, na Casa França Brasil, no Centro do Rio, o painel ‘Esse Tal do Efeito Estufa’ reuniu cinco vozes de áreas distintas para debater os impactos das mudanças climáticas na vida das populações e o papel da comunicação na mobilização social. Participaram Marcelle Oliveira (Campeã da Juventude COP30), a cientista Thelma Krug (líder do conselho científico da COP30 e ex-vice-presidente do IPCC), o médico Paulo Saldiva (Comitê Científico da Sociedade Internacional de Saúde Urbana), o pesquisador Eduardo Assad (FGV/GV Agro) e o multiartista Criolo.

A cientista Thelma Krug destacou que a adaptação às mudanças climáticas é inevitável e precisa ser planejada com base em projeções futuras. “Não podemos reagir apenas ao que já está acontecendo. Precisamos projetar os próximos anos, enfrentar eventos extremos e preparar cidades, ecossistemas e populações para uma nova realidade climática”, afirmou. Apesar do alerta, Thelma reforçou que comunicar esperança é essencial para engajar a sociedade, especialmente os jovens.

Calor extremo, saúde urbana e desigualdade

Durante a roda de conversa, o médico Paulo Saldiva, membro do Comitê Científico da Sociedade Internacional de Saúde Urbana, trouxe dados preocupantes sobre o impacto das ondas de calor nas cidades. Segundo ele, quando a temperatura atinge os 12,5% dos dias mais quentes, o risco de morte por causas naturais aumenta em até 70%. “Moradia inadequada, transporte precário e longos deslocamentos agravam os impactos do calor extremo sobre a saúde, especialmente nas populações mais vulneráveis”, destacou.

Compondo o painel, o multiartista Criolo emocionou o público ao relacionar sua infância em um barraco de madeira, na periferia de São Paulo, à discussão sobre

território e desigualdade social. “A gente está morrendo enquanto o mundo tecnológico avança. A arte, a poesia e a música são formas de contar histórias, de dar voz a quem mais sofre e de criar comunhão”, disse Criolo.

Brasil e Bahia na rota da transição energética

Na manhã de terça-feira, no Windsor Florida Hotel, o iCS e a e-Mundi reuniram jornalistas de 15 capitais brasileiras para o painel ‘Powershoring e Descarbonização’, que apresentou dados e estratégias para fortalecer a liderança do Brasil na produção de energias limpas, biocombustíveis e soluções de baixo carbono.

A gerente de Transição Energética, Industrial e de Transportes do iCS, Victoria Santos, destacou o potencial do país e o papel estratégico da Bahia, que hoje lidera a capacidade instalada de energia eólica e solar no Brasil. “A Bahia demonstra grande potencial para aproveitar seus recursos. Um exemplo é o investimento da Acelen na produção de macaúba para combustíveis de aviação, aproveitando áreas locais com forte capacidade produtiva. O desafio, no entanto, está em desenvolver essa infraestrutura de forma mais abrangente e sustentável”, disse à Tribuna da Bahia.

Victoria defendeu ainda a necessidade de uma política industrial de longo prazo, que vá além dos ciclos de mandatos políticos, e destacou que os investidores precisam atuar como cofinanciadores de infraestrutura. “Não basta atrair indústrias verdes. É fundamental garantir que esses investimentos beneficiem a sociedade, especialmente a população do semiárido baiano, gerando empregos e capacitando trabalhadores para novas atividades produtivas”, disse.

Federalismo climático e políticas públicas

No painel ‘Federalismo Climático e Adaptação rumo à COP30’, Walter De Simoni, especialista do iCS, reforçou que estados e municípios precisam assumir protagonismo na execução de políticas públicas voltadas à adaptação climática. Para ele, é urgente repensar a forma como o Brasil define e distribui os investimentos para garantir resiliência em todos os territórios.

“Todos os investimentos, sem exceção, precisam considerar o impacto climático. Seja no BNDES, no PAC ou em outras fontes, os critérios de aprovação devem priorizar essa dimensão. Precisamos construir essa abordagem de forma estruturada e permanente”, afirmou à Tribuna.

O encontro reforçou a importância de ampliar o diálogo entre ciência, política, economia e comunicação diante da crise climática. Para os jornalistas presentes, o desafio vai além de informar. É preciso engajar a pauta, traduzir dados complexos e transformá-los em narrativas que mobilizem a sociedade e influenciem decisões. Com a COP30 se aproximando, o Brasil assume papel

central nas discussões globais e precisa converter debates como este em estratégias concretas que preparem o país para um futuro mais sustentável.

 

 

 

 

Fonte: Tribuna da Bahia