Acidente com maratonista evidencia persistência da imprudência

Um carro desgovernado, geralmente em alta velocidade, e ao volante um motorista embriagado ou que se recusou a fazer o teste do bafômetro. A cena não é tão rara em Salvador e os seus efeitos já são conhecidos: uma vida e uma família em pedaços. O caso do corredor Emerson Pinheiro é um dos mais recentes na capital baiana e infelizmente não será o último.

No último sábado (16), Emerson, de 35 anos, se preparava na orla da Pituba para uma maratona, quando foi atingido pelo veículo conduzido por Cleidson Cardoso. O maratonista teve as duas pernas fraturadas e uma delas amputada. Já o motorista, que apresentava sinais de embriaguez no momento em que as autoridades chegaram ao local, foi preso em flagrante e teve a prisão preventiva decretada em audiência de custódia no domingo (17). Segundo testemunhas, ele não foi capaz de concluir o teste do bafômetro, além de não conseguir andar ou falar direito. Cleidson já apresentava, pelo menos, outras três multas por dirigir em alta velocidade.

O caso expõe, mais uma vez, a ferida aberta do trânsito baiano: mesmo com multas pesadas, campanhas de conscientização e um crescimento expressivo no número de blitzes, seguem crescendo as infrações, os acidentes e as mortes causadas pela irresponsabilidade de quem insiste em misturar direção e álcool.

As histórias se repetem

2009, Ipitanga
O soldado da Aeronáutica Alisson Luiz dos Santos Maia foi condenado, em 2014, a 16 anos de prisão pela morte de três pessoas de uma mesma família. À época, a defesa sustentou que ele não fez uso de bebida alcoólica, mas o delegado atestou que o soldado não foi submetido a exame de alcoolemia.

2015, Itaigara
O publicitário Daniel Prata, 28 anos, foi morto ao ter seu veículo atingido por um condutor com suspeita de embriaguez. Três anos depois, o advogado e professor universitário Roberto João Starteri Sampaio, motorista que conduzia o carro, foi preso novamente em flagrante, durante uma blitz de alcoolemia.

2025, Águas Claras
Em fevereiro deste ano, um idoso morreu ao ser atropelado por um motorista embriagado na BR-324. Abordado pela PRF, o condutor tinha fala desconexa, odor etílico, olhos vermelhos e falta de equilíbrio. O teste com o etilômetro passivo confirmou a presença de álcool. Ele também não possuía carteira de habilitação e foi preso.

Tolerância zero

Entre o estabelecimento da Lei Seca no Brasil em 2008 até o primeiro semestre deste ano, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 4.657 acidentes e 514 óbitos por conta do uso de álcool seguido de direção. A legislação prevê uma multa de R$ 1,5 mil e, como o próprio nome diz, estabelece uma tolerância zero para a quantidade de álcool no sangue. Junto a ela, veio também o aumento expressivo de blitzes. Só neste ano, já foram mais de 44 mil abordagens em Salvador – mais do que dobraram desde 2020, segundo a Transalvador.

Recusa do teste

A PRF registrou altos índices de recusa nos testes de embriaguez na Bahia nos últimos 10 anos: quase 18 mil testes e exames clínicos foram negados. Isso acontece com base no princípio constitucional de não produzir provas contra si mesmo. Ainda assim, a recusa pode resultar em infração administrativa, com multa e suspensão do direito de dirigir.

Insistência e permissividade

Mas o que chama a atenção é a redução drástica no número de apreensões da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), mesmo diante do aumento de abordagens. Em 2024, por exemplo, em meio a mais de 55 mil abordagens, apenas uma CNH foi apreendida.

A irresponsabilidade no consumo, a insistência de muitos motoristas em dirigir sob condições criminosas e, em muitos momentos, a permissividade com esses condutores põem em risco a vida de inocentes e deixam escancarado que, mesmo sendo um assunto antigo, muita gente ainda não aprendeu.

Fonte: Tribuna da Bahia