Para o presidente do congresso, o dermatologista baiano Paulo Barbosa, o momento é histórico
Salvador, cidade mais negra fora da África, está sediando um congresso que pode marcar um divisor de águas para a dermatologia brasileira. O 35º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica coloca, pela primeira vez, a pele étnica no centro das discussões científicas, refletindo o momento atual de luta antirracista e a urgência de tratar e se debruçar com mais profundidade para as especificidades dessa pele.
Se propondo a dar um passo fundamental para uma ciência dermatológica mais inclusiva e representativa, o evento começou ontem e vai até sábado (27), no Centro de Convenções Salvador (CCS), reunindo cerca de três mil dermatologistas brasileiros e convidados internacionais. A realização é da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), a segunda maior entidade mundial da especialidade.
Para o presidente do congresso, o dermatologista baiano Paulo Barbosa, o momento é histórico. “Como baiano, como presidente e como profissional que há mais de 30 anos trabalha com laser, inclusive em peles negras, achei que era hora de colocar esse debate onde ele merece estar: no centro. Não dá mais para a dermatologia continuar ignorando que somos um país de maioria negra, de peles diversas, de necessidades específicas”, afirmou em entrevista à Tribuna.
Embora a temática da pele étnica já tenha figurado em mesas e painéis isolados em outros eventos, é a primeira vez que ela ocupa o centro da programação durante todos os dias de um congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. “É um divisor de águas. Pela primeira vez, a pele negra não está apenas na lateral do discurso, mas no coração da ciência dermatológica brasileira”, pontua Barbosa, uma das principais referências nacionais no tratamento a laser em peles afrodescendentes. Ele já presidiu duas vezes o Departamento de Laser da Sociedade Brasileira de Dermatologia, tem pesquisas publicadas, atua internacionalmente e mantém sua base na Bahia.
De acordo com Barbosa, a evolução tecnológica está sendo fundamental. “Hoje os aparelhos são mais rápidos, mais eficazes e menos agressivos. Antes, usar laser em pele negra era sinônimo de queloide, de cicatriz. Agora conseguimos atingir a derme média sem causar queimaduras ou marcas. Isso abriu um novo mundo de possibilidades”, explica.
A transformação reduziu o receio dos próprios profissionais, que antes evitavam realizar procedimentos por medo de complicações. “Com os novos aparelhos, os resultados começaram a aparecer e isso gerou confiança, tanto no médico quanto no paciente. E quando os resultados aparecem, a indústria começa a se mover”, explicou.
A programação de hoje (25) terá entre os principais temas os tratamentos capilares para a população negra, como alopecia areata e alopecia fibrosante, condições mais comuns em pessoas com fototipos altos e que, por muito tempo, foram negligenciadas nos estudos dermatológicos, conforme explica o presidente do Congresso. Além disso, os congressistas debaterão preenchedores, toxinas botulínicas e outras técnicas de rejuvenescimento facial, sempre com ênfase nos diferentes comportamentos da pele conforme o tom e o tipo.
Indústria – Conforme o presidente do Congresso, a indústria dermocosmética e farmacêutica passou a enxergar o potencial do mercado de peles étnicas. “A indústria está apostando cada vez mais nesse segmento. Isso tem a ver com representatividade. O negro está nas novelas, na publicidade, nas redes sociais. Isso força o mercado a se atualizar”, ressalta. Ele reconhece, no entanto, que a ciência ainda engatinha quando se trata de peles negras. “Ainda faltam estudos clínicos focados nesse público. Enquanto os asiáticos — coreanos, japoneses — investem pesado em dermatologia, os estudos com foco em peles negras ainda são recentes. Mas estão crescendo, e congressos como este são fundamentais para impulsionar essa agenda”, disse.
Entre os participantes, está a médica norte-americana Susan Taylor, presidente da Academia Americana de Dermatologia e uma das maiores autoridades mundiais em cuidados dermatológicos para peles étnicas. O evento também conta com o espanhol Miguel Sanchez, ex-presidente da Academia Europeia de Dermatologia.
Fonte: Tribuna da Bahia






