O Nordeste ocupa o segundo lugar com a maior taxa de automedicados, com 28%
A automedicação é um risco ao qual o brasileiro tem se exposto cada vez mais nos últimos dez anos: pesquisa recente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) revelou que no Brasil 86% dos entrevistados tomam remédios sem orientação ou prescrição de um médico ou farmacêutico clínico.
Conforme o estudo, antes da pandemia a cultura da automedicação ficava na faixa dos 70% dos brasileiros. Pós-pandemia tem chegado aos 90%. A pesquisa foi feita em todas as regiões do país, em mais de 120 municípios brasileiros. Um dado chama a atenção: quem mais comete o equívoco tem maior escolaridade, instrução e poder socioeconômico.
O Nordeste ocupa o segundo lugar com a maior taxa de automedicados, com 28%. Em primeiro lugar está o Sudeste (43%), em terceiro o Sul (15%) e em quarto o Centro Oeste (8%). A porcentagem das regiões, conforme o ICTQ, se aproxima a dos estados.
A prática da automedicação é mais comum em casos de medicamentos encontrados facilmente nas prateleiras com objetivo de curar dor de cabeça, gripes, resfriados, febre e dores musculares.
O uso dessas medicações encontradas facilmente nas prateleiras das farmácias pode parecer inofensivo, mas em excesso pode causar graves danos, retardar tratamentos adequados e mascarar doenças graves – o que ocorre muito com os analgésicos. Casos de cirrose hepática e medicamentosa podem surgir.
Neste ano, em que o Brasil passa por uma epidemia de dengue, por exemplo, especialistas alertam para a venda aleatória de aspirinas, anti-inflamatórios não esteroidais, como ibuprofeno, diclofenaco, e naproxen, entre outros. Eles podem facilitar o surgimento de sangramentos por provocarem irritação no estômago.
“Tem analgésico que de forma incorreta e excessiva pode causar cirrose hepática e medicamentosa. Se misturados, anulam ou potencializam os efeitos. Para quem está com sintoma de dengue é um risco à saúde. É crucial conscientizar a população sobre os riscos associados à automedicação e promover a busca por orientação profissional em questões de saúde. E outros remédios também viciam, causam danos sérios e o vício é algo ainda mais grave”, destaca Marcus Vinícius.
População com maior escolaridade é quem mais comete o erro de se automedicar
O uso de plataformas de busca, como Google e Yahoo.com, tem sido comum pela população para se autodiagnosticar e identificar os próprios sintomas. Grande erro, alertam os especialistas. De acordo com o diretor de Pesquisas do ICTQ, Marcus Vinicius Andrade, observou-se ao longo de dez anos que o hábito de consumir medicamentos sem consulta médica está ligado às pessoas da classe A e B, faixa etária entre 16 e 30 anos, com maior nível socioeconômico e de escolaridade.
A pesquisa aponta, ainda, que mulheres são as que mais se automedicam, no entanto, o diretor de pesquisas acredita que esta questão tem menos a ver com gênero e mais com estratificação populacional. O maior número de mulheres na população motiva o mercado a criar produtos de variados tipos e publicidades para estimular o consumo. “Mulheres são maioria populacional no Brasil.
Ausência de farmacêuticos clínicos e conivência da Anvisa favorecem automedicação
Vários motivos podem explicar a cultura da automedicação, a começar pela falta de acesso nas farmácias aos profissionais clínicos. “Faltam mais farmacêuticos clínicos. A guerra comercial também é outro fator, o que recai na falta de uma política pública de saúde mais contundente: remédios podem não necessariamente precisar de receita, mas sempre de uma orientação.
Daí a importância, conforme explica a médica Isana Aguiar, de farmacêuticos clínicos nos estabelecimentos e de remédios que não estejam ao alcance dos consumidores. “As farmácias precisam ter responsabilidade também nesse processo. Está vendo um cliente chegar comprando dez caixas de Doril, de Dorflex, de analgésicos, e não questiona o porquê tanto medicamento? Além das clandestinas que vendem sem receita remédios como Rivotril. Não é possível que tenha tanto médico receitando Rivotril aleatoriamente”, afirma.
O diretor de pesquisas do ICTQ, Marcus Vinicius, pontua: “A Anvisa não regulamenta determinados medicamentos a ficarem restritos no balcão atrás das farmácias. Ser isento de prescrição não significa ser isento de orientação. A política da Anvisa e do Governo deve partir para proibir o uso desenfreado, mas é uma briga grande com indústria, com comércio. Em vários países essa política de saúde pública já é estabelecida.
Procurado pela reportagem, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) afirmou que tem trabalhado muito no sentido de reverter esse quadro. “Aprovou as resoluções 585 e 586, ambas de 2013, que dispõem sobre as atribuições clínicas do farmacêutico e a prescrição farmacêutica, e lutou pela aprovação da Lei nº 13.021/2014, que reclassificou as farmácias como unidades de assistência à saúde. Tudo isso para promover o uso racional de medicamentos”, informou.
Segundo o conselho, a população tem à sua disposição, nas farmácias, “o profissional da saúde que mais conhece sobre medicamentos para orientá-la. Para evitar riscos de efeitos colaterais, de mascaramento de sintomas de doenças graves e outros problemas causados pela automedicação, a orientação do CFF ao cidadão é “consulte sempre o farmacêutico”, acrescentou.
Ainda conforme o órgão,a não ser no caso dos medicamentos de uso sob prescrição e controlados, em que deve ser seguido o que está indicado no receituário, não há norma que limite a quantidade de medicamentos que cada paciente pode adquirir. “Porém é atribuição do farmacêutico orientar o uso racional dos medicamentos”.
Fonte: Tribuna da Bahia






